
Em 30 de setembro de 2026, o Pentágono anunciou que os últimos militares e equipamentos da coalizão haviam concluído uma saída ordenada da base aérea de Erbil, no Curdistão iraquiano. Terminava ali uma presença iniciada em março de 2003, que atravessou ocupação, guerra sectária, a ascensão e a derrota do Estado Islâmico.
Os números ajudam a dimensionar a página que se vira. Foram 23 anos, cerca de 1,7 trilhão de dólares em custos estimados, quase 4.500 militares americanos mortos e um pico de aproximadamente 170 mil soldados em 2007. Em fevereiro deste ano, ainda havia cerca de 2 mil a 2,5 mil americanos no país.
A retirada americana do Iraque não foi improvisada. Ela resulta de um acordo bilateral anunciado em setembro de 2024, ainda no governo Biden, e mantido pelo governo Trump. Isso revela algo pouco lembrado no debate público, porque mostra continuidade estratégica entre administrações distintas e respeito a um compromisso firmado com um governo soberano.
|"A retirada americana do Iraque não foi improvisada em plena guerra. Foi um acordo de 2024, firmado por um governo e cumprido pelo seguinte."|
O porta-voz do Departamento de Defesa, Sean Parnell, resumiu o momento como a conclusão bem-sucedida de uma campanha de 12 anos que derrotou o Estado Islâmico como ameaça militar organizada. Em Bagdá, o primeiro-ministro Ali al-Zaidi declarou que o país iniciava uma nova fase, definida pela soberania e pela força de suas instituições.
Da invasão ao califado derrotado
Para entender o peso da data, vale recuar. A Operação Iraqi Freedom derrubou Saddam Hussein em cerca de três semanas. Uma das primeiras ações ocorreu justamente no norte curdo, quando perto de mil paraquedistas da 173ª Brigada Aerotransportada saltaram sobre o campo de pouso de Bashur, na mesma província de Erbil.
A vitória convencional foi rápida, mas a estabilização se mostrou muito mais complexa. A insurgência evoluiu para violência sectária a partir de 2006. A resposta veio com o Surge de 2007, com cerca de 30 mil soldados adicionais e a doutrina de contrainsurgência associada ao general David Petraeus, que reduziu drasticamente a violência e se tornou referência em academias militares de todo o mundo.
Em 2011, as tropas deixaram o país. O intervalo durou pouco. Em 2014, diante do avanço do Estado Islâmico sobre vastas áreas do território e da ameaça às portas de Bagdá, as próprias autoridades iraquianas pediram o retorno americano.
Nascia a Operação Inherent Resolve, com um modelo diferente. O foco passou a ser apoio aéreo, inteligência e treinamento, enquanto forças iraquianas e peshmergas curdos combatiam em terra. Mossul foi libertada em 2017, após nove meses de intenso combate urbano, e Bagdá declarou vitória contra o califado em dezembro daquele ano.
Esse segundo ciclo merece atenção do ponto de vista do Direito Internacional. A presença americana a partir de 2014 se apoiou no consentimento expresso do Estado anfitrião, fundamento clássico de legitimidade para o emprego de forças estrangeiras. A saída de agora segue a mesma lógica, pois decorre de uma negociação entre governos e não de imposição.
Quando a ameaça mudou de cor
Derrotado o califado, a ameaça principal passou a ser outra. Em janeiro de 2020, um ataque de drone eliminou o general iraniano Qasem Soleimani, arquiteto da rede de grupos armados de Teerã na região, e o líder miliciano Abu Mahdi al-Muhandis. Desde então, as bases americanas se tornaram alvo recorrente de milícias pró-Irã.
A partir de 28 de fevereiro de 2026, com o início do confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã, o quadro se agravou. Segundo o Comando Central americano, citado em análise do canal Hoje no Mundo Militar, houve mais de 600 tentativas de ataque contra americanos no Iraque somente entre fevereiro e abril.
Nesse cenário, uma guarnição pequena e concentrada em Erbil, dependente de baterias Patriot, que estão entre os recursos mais disputados do arsenal ocidental, deixou de fazer sentido operacional. Manter meios escassos em posição exposta, quando podem proteger aliados em outros pontos, é uma decisão de racionalização de forças, não de abandono.
Havia ainda um segundo motivo. A fase final do acordo existia para apoiar operações contra o Estado Islâmico na Síria. Em fevereiro deste ano, porém, Washington começou a planejar a retirada de seus cerca de mil militares do território sírio, o que esvaziou essa justificativa.
O primeiro desafio está no céu
O ponto mais sensível da transição é a defesa aérea. Segundo a Rudaw, oito baterias Patriot foram realocadas para a Jordânia ainda no fim de julho, e o Reino Unido transferiu seu sistema Rapid Sentry para Chipre. Os sistemas C-RAM, voltados a foguetes e drones, também deixaram Erbil com o fim da missão.
O governo regional curdo afirma ter sofrido mais de mil ataques com drones e mísseis balísticos desde 28 de fevereiro. Um deles atingiu diretamente o escritório do primeiro-ministro regional, Masrour Barzani, que pediu publicamente aos aliados ajuda para construir uma capacidade própria de proteção.
|"O Curdistão iraquiano sofreu mais de mil ataques com drones e mísseis desde fevereiro. A defesa aérea virou a primeira fronteira da soberania."|
Bagdá diz estar perto de adquirir sistemas de defesa aérea da Coreia do Sul, da Turquia e dos Estados Unidos. O obstáculo é o tempo. Transformar um contrato em capacidade operacional exige formação de operadores, integração de radares, logística de mísseis e doutrina, o que costuma levar anos.
Contratos de armamento se assinam em semanas, mas capacidade operacional real exige anos de treinamento, integração e doutrina.
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Indicador |
Situação |
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Início da presença |
Março de 2003 |
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Pico de efetivo |
Cerca de 170 mil militares em 2007 |
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Efetivo em fevereiro de 2026 |
Entre 2 mil e 2,5 mil militares |
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Ataques ao Curdistão desde 28 de fevereiro |
Mais de mil, segundo o governo regional |
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Prazo para desarmamento das milícias |
30 de junho de 2027 |
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Trégua anunciada por Bagdá |
90 dias sem ataques após a retirada |
Milícias, o desafio interno
O segundo desafio é doméstico. O governo iraquiano havia vinculado a saída americana ao desarmamento das milícias, mas as facções mais poderosas e ligadas ao Irã recusaram. Na Assembleia Geral da ONU, al-Zaidi anunciou um plano por etapas com prazo final em 30 de junho de 2027 e defendeu que as armas permaneçam nas mãos das instituições constitucionais.
O secretário de Estado Marco Rubio foi direto ao advertir que o Iraque corre risco de balcanização se os grupos armados não forem submetidos ao controle do Estado. A advertência é tecnicamente precisa, porque nenhum Estado consolida soberania enquanto convive com estruturas armadas que respondem a uma potência estrangeira.
|"Nenhum Estado é plenamente soberano enquanto convive com milícias armadas que respondem a uma potência estrangeira."|
Bagdá afirma ter garantias de Washington e das próprias milícias de 90 dias sem ataques. Trata-se de uma trégua frágil. Um dirigente do Kata'ib Hezbollah advertiu que qualquer governo que não sirva ao povo será derrubado por todos os meios, frase que soa como ameaça explícita à autoridade do Estado iraquiano.
Há também um efeito regional. Em setembro, o governo iraquiano confirmou que um ataque contra um oleoduto saudita partiu da província de Maysan. Esse duto é justamente a rota alternativa ao Estreito de Ormuz. Assim, o território iraquiano já funciona como plataforma para a estratégia de pressão iraniana sobre o mercado de energia.
Esse é um traço típico da guerra por procuração. O Irã terceiriza o risco, preserva a negação plausível e explora Estados frágeis como profundidade estratégica. A distinção com o modelo ocidental é evidente, pois a presença americana dependia de acordos formais, prestação de contas ao Congresso e regras de engajamento sujeitas ao Direito Internacional dos Conflitos Armados.
|"Teerã terceiriza o risco e explora Estados frágeis como profundidade estratégica. Essa é a essência da guerra por procuração."|
O Estado Islâmico ainda respira
O terceiro fator é o Estado Islâmico. Segundo a ONU, o grupo vive seu ponto mais fraco, com poucas centenas de combatentes no Iraque. Oficiais iraquianos, porém, relatam que ele planejou atentados para coincidir com a retirada.
Organizações terroristas desse tipo exploram janelas de transição. Elas precisam de pouca gente para produzir efeito simbólico e midiático. Um atentado bem-sucedido num momento de mudança pode servir mais à propaganda do que a qualquer objetivo militar.
Um comandante curdo apontou lacunas menos visíveis. Com a saída, o Iraque perde inteligência, vigilância por drones e apoio logístico. A Força Aérea iraquiana garante manter seus F-16 por conta própria, com ciclos de dez dias sem auxílio externo. Ainda assim, o país sequer tinha um ministro da Defesa nomeado no momento da transição.
O Iraque não está sozinho
Seria um erro ler a retirada como ruptura. Os dois países devem retomar o Acordo-Quadro Estratégico de 2008, que prevê cooperação de segurança, ainda que sem caráter vinculante. Bagdá abriga a maior embaixada americana do mundo, e o próprio governo iraquiano fala em migrar a parceria do campo militar para o econômico.
O modelo também não é inédito. Parcerias maduras entre democracias e Estados em consolidação costumam evoluir da presença de tropas para a cooperação técnica, o treinamento e a venda de equipamentos. Os Estados Unidos mantêm capacidade de resposta a partir da Jordânia, do Golfo e de seus meios navais.
O custo real é de percepção e de proximidade. Sem tropas no terreno, Washington perde olhos e mãos dentro do país. Teerã e seus aliados celebraram a saída como vitória própria, segundo a CNN. Essa narrativa é parte da guerra cognitiva iraniana, que tenta converter uma decisão negociada em suposta derrota ocidental.
Por que isso importa ao Brasil
O tema parece distante, mas toca o interesse brasileiro em ao menos três frentes. A primeira é a energia. Ataques a oleodutos e ameaças a Ormuz pressionam o preço internacional do petróleo, com reflexos sobre combustíveis, fretes e inflação no Brasil, ao mesmo tempo em que valorizam a produção brasileira como fonte estável e confiável.
A segunda é a doutrina. O Brasil acumulou experiência reconhecida em operações de paz, como no Haiti, onde as Forças Armadas brasileiras lideraram o componente militar da MINUSTAH por 13 anos. A transição iraquiana oferece lições valiosas sobre o momento delicado em que forças externas entregam a segurança às instituições locais.
A terceira é o próprio conceito de soberania. O caso iraquiano demonstra que um Estado só é plenamente soberano quando detém o monopólio legítimo da força. Para um país que enfrenta facções criminosas transnacionais com crescente poder bélico, a lição sobre grupos armados paralelos ao Estado não é abstrata.
Uma transição de alto risco
A saída de Erbil encerra um ciclo histórico com um dado positivo, pois foi negociada, cumprida no prazo e baseada no consentimento de um governo soberano. Ela coroa a derrota do califado e cumpre a promessa de devolver aos iraquianos a responsabilidade por sua própria segurança.
O sucesso, contudo, dependerá de três variáveis. Bagdá precisa erguer uma defesa aérea crível, desarmar milícias que respondem a Teerã e impedir que o Estado Islâmico explore o vácuo. Se falhar em qualquer delas, o Iraque pode se tornar o próximo campo de batalha de uma guerra ainda aberta.
O desafio, portanto, deixou de ser americano e passou a ser iraquiano. A comunidade de democracias tem interesse direto em que essa aposta na soberania funcione.
Diante disso, fica a pergunta para o leitor. O Iraque conseguirá equilibrar Washington, Teerã e suas próprias milícias, ou a retirada americana do Iraque será lembrada como o início de uma nova fase de instabilidade no Oriente Médio?
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