A Realpolitik de Trump: Reafirmando o Poder em um Sistema Anárquico

Em janeiro de 2026, o cenário geopolítico global testemunha a consolidação de uma política externa americana que, sob a liderança de Donald Trump, ressoa profundamente com os preceitos da Escola Realista das Relações Internacionais. Longe das nuances idealistas ou construtivistas, a abordagem de Washington tem se pautado por uma Realpolitik pragmática, onde o interesse nacional, a busca por poder e a segurança em um sistema internacional inerentemente anárquico ditam as ações.

Este artigo busca analisar as recentes movimentações dos Estados Unidos na Venezuela, Colômbia, Groenlândia e Ucrânia, interpretando-as como manifestações de uma estratégia coerente de reafirmação de poder, desprovida de sentimentalismos e focada na maximização da influência americana.

A captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, seguida pelas declarações de Trump sobre uma possível intervenção na Colômbia, ilustra a aplicação do Realismo Ofensivo na esfera hemisférica. Para teóricos como John Mearsheimer, a anarquia internacional impele os Estados a buscarem a maximização de seu poder relativo, visando a hegemonia regional como garantia de segurança.

A operação na Venezuela, justificada pelo combate ao narcoterrorismo e à designação do “Cartel de los Soles” como organização terrorista, pode ser interpretada como um movimento estratégico para eliminar um ator hostil e consolidar a esfera de influência americana.

A menção à Colômbia, com seu governo de esquerda e histórico de críticas às políticas americanas, reforça a percepção de uma Doutrina Monroe revitalizada, onde a estabilidade e o alinhamento regional são assegurados por ações assertivas. O interesse nacional, neste contexto, transcende considerações ideológicas, focando na eliminação de ameaças potenciais e na garantia de acesso a recursos estratégicos, como o petróleo venezuelano.

A diplomacia assume um caráter transacional, onde o poder é a moeda de troca fundamental. A percepção de que a instabilidade em qualquer nação do hemisfério ocidental pode comprometer a segurança e a prosperidade dos Estados Unidos legitima, sob a ótica realista, a projeção de poder para além das fronteiras.

Essa abordagem não se detém em questões de soberania formal, mas na capacidade de um Estado de influenciar e controlar seu entorno estratégico, garantindo a primazia de seus interesses em uma região vital para sua segurança energética e geopolítica. A intervenção é vista como uma ferramenta necessária para manter a ordem e a hegemonia regional, minimizando riscos e maximizando ganhos de poder.

Paralelamente, a persistente menção de Donald Trump sobre a “aquisição” da Groenlândia, um tema que ressurge com vigor em 2026, é um exemplo clássico da Geopolítica de Recursos e da busca por Vantagem Relativa. Em um mundo onde a competição por recursos e posições estratégicas é constante, o controle territorial da Groenlândia oferece aos Estados Unidos uma vantagem inestimável no Ártico. A região, rica em minerais e com rotas marítimas cada vez mais acessíveis devido às mudanças climáticas, representa um ponto nodal para a segurança e a projeção de poder global.

A perspectiva realista argumenta que, em um sistema anárquico, os Estados devem agir para garantir sua sobrevivência e prosperidade, mesmo que isso implique em desconsiderar normas de soberania territorial em favor de imperativos estratégicos. A lógica por trás do interesse na Groenlândia não é sentimental, mas puramente utilitária: trata-se de um ativo geoestratégico que fortalece a posição americana em uma competição global crescente, especialmente com potências como a China e a Rússia, que também demonstram interesse na região ártica.

A retórica de Trump reflete uma compreensão profunda de que o poder material e a geografia são determinantes nas relações internacionais. A posse da Groenlândia não apenas expandiria o território e os recursos naturais sob controle americano, mas também projetaria o poder dos EUA em uma região de crescente importância estratégica, onde a presença de rivais poderia ser mitigada. Essa visão pragmática da geografia como um fator de poder é um pilar do pensamento realista, onde a capacidade de controlar e explorar espaços geográficos é diretamente proporcional à influência de um Estado no cenário global.

No front europeu, a abordagem de Trump em relação ao conflito russo-ucraniano em 2026 revela uma aplicação do Realismo Estrutural, onde a Balança de Poder é o principal motor das decisões. A busca por um “acordo de paz” que reconheça as realidades de campo e as esferas de influência russas não é um sinal de fraqueza, mas de um cálculo estratégico para reequilibrar o sistema.

A sugestão de que a Rússia pague pela reconstrução da Ucrânia, embora possa parecer uma medida punitiva, insere-se em uma lógica transacional de compensação e reajuste de custos. O objetivo subjacente é estabilizar a Europa Oriental, permitindo que os Estados Unidos reorientem seus recursos e foco estratégico para a contenção da China.

A Ucrânia, nesse xadrez global, torna-se uma peça a ser movimentada para otimizar a posição americana em um cenário de rivalidade de grandes potências. O desapego a princípios liberais de integridade territorial é substituído por um pragmatismo que visa a segurança e a primazia do Estado americano no sistema internacional. Essa flexibilidade na abordagem de conflitos distantes, em contraste com a rigidez demonstrada no hemisfério, sublinha a hierarquia de interesses nacionais e a alocação estratégica de poder, características marcantes da Realpolitik.

Em síntese, a política externa de Donald Trump em 2026 é um testemunho da Realpolitik em sua forma mais pura. Ela se manifesta como uma reafirmação do poder em um sistema internacional que, do ponto de vista realista, é intrinsecamente anárquico e competitivo. As ações na Venezuela e Colômbia demonstram a prioridade da hegemonia regional; o interesse na Groenlândia sublinha a importância dos ativos estratégicos; e a abordagem na Ucrânia revela um cálculo de balança de poder global.

A “Doutrina Trump” pode ser caracterizada por um unilateralismo pragmático, onde a diplomacia é um instrumento de poder e a segurança nacional é o valor supremo. Longe de ser uma política errática, ela representa uma aplicação consistente dos princípios realistas, onde o interesse nacional, definido em termos de poder, guia cada decisão, moldando a ordem global de acordo com a visão americana de um mundo competitivo e autoajudado.

Este panorama geopolítico, analisado sob a lente do realismo, oferece uma compreensão mais profunda das forças motrizes por trás das decisões de política externa dos EUA, destacando a primazia do poder e da segurança em um ambiente internacional em constante fluxo. A coluna “O Prisma Vermelho” tem a oportunidade de desvendar essas complexidades, fornecendo aos seus leitores uma análise perspicaz e tecnicamente embasada sobre a dinâmica do poder global em 2026.

Autor: DIH em FOCO

  • Graduado em Direito.
  • Mestre em Direito Internacional Humanitário, Direitos Humanos e Direito Operacional.